Guerra comercial pode prejudicar agroindústria

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06/07/2018

Marcadas para começarem oficialmente nesta sexta-feira, 6, as sobretaxas chinesas e norte-americanas sobre produtos do outro país devem afetar todo o comércio mundial. E as mudanças podem não ser boas para o Brasil. “Não sabemos como as cadeias produtivas vão se realocar. Para o Brasil, em um primeiro momento pode ter celebração por vender mais soja para a China, mas isso pode acabar com a indústria de processamento local, prejudicar o biodiesel e a indústria de carnes. E é importante para o país ter cadeia agroindustrial complexa”, diz Luís Barbieri, conselheiro da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec).

O executivo ainda ressalta que é preocupante a volatilidade que a guerra comercial gera no mercado. “Não sabemos se compramos hoje do produtor, pois não há certeza se a China vai comprar amanhã. A volatilidade do tweet político [do presidente dos Estados Unidos Donald Trump] prejudica.

Barbieri afirma que o momento é de incerteza também em relação aos preços, pois não se sabe se as tarifas funcionarão como sobretaxas ou como um banimento velado da soja americana na China. “As variáveis ainda não estão definidas”. Por enquanto, o impacto negativo é pequeno para as cotações brasileiras, com as altas do prêmio compensando as baixas na Bolsa de Chicago. “Minha conta é que perdemos cerca de R$ 0,50/bushel entre o começo da tensão e agora”, relata André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult. Ele reforça que ainda é preciso considerar que as perspectivas de uma boa safra norte-americana de soja e a desvalorização do Real frente ao dólar já pressionariam os valores independentemente da guerra comercial.

Em um cenário de concretização das tarifas e expansão da venda de soja brasileira para a China, Barbieri acredita que o Brasil chegará a importar soja dos Estados Unidos – algo incomum, que aconteceu em momentos de quebra de safra – para processamento interno ainda em 2018. “Fábricas mais próximas do litoral, principalmente no Paraná e Rio Grande do Sul, já começam a ver isso como opção economicamente viável. Mas há o gargalo de infraestrutura, então acredito em um volume de cerca de 500 mil a 1 milhão de toneladas importadas”.

A expectativa no momento é de exportações recordes de soja, com cerca de 73,5 milhões de toneladas embarcadas em 2018. “Ainda não atualizamos esse número, porque embora a guerra comercial tenha uma pressão positiva, a incerteza em relação aos preços do frete atua de forma negativa”, explica o sócio-diretor da Agroconsult.

Frete

O impasse em relação ao tabelamento do frete ainda preocupa, mas as empresas têm conseguido buscar a soja no interior e levá-la para os portos. “Essa é uma época de pico de frete na maioria das regiões, então os valores de mercado já ficam acima da tabela”, explica Barbieri. Nos lugares onde isso não ocorre, o transporte tem sido negociado caso a caso. “Cada associado trabalha de uma forma. Alguns, por exemplo, tem o entendimento jurídico de que a tabela não é válida e negociam assim”. A Anec, junto com outras entidades, está trabalhando em uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin), já que considera o tabelamento de preços mínimos inconstitucional.

Apesar de a movimentação continuar, a situação de incerteza em relação ao tabelamento – ao lado da guerra comercial entre EUA e China – trava os negócios para o ano que vem e deve afetar a rentabilidade da cadeia. “As exportações tiveram impacto grande, o produtor ainda precisa comprar fertilizantes e pode ter a margem decapitada com a situação. O frete impacta o sistema em ondas”, afirma o conselheiro da Anec.

De acordo com Barbieri, as associadas devem perder entre 10% e 30% dos resultados previstos para o ano por conta da greve e das consequências dela. “Foram de 10 a 15 dias sem embarcar e em junho o preço do frete ficou muito acima da média histórica”.

Imagem: Comex do Brasil



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