Método propaga manejo na base da confiança

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07/02/2018

Ela entra tranquilamente no curral; se posiciona frente ao lote de novilhas Nelore recém-chegadas do pasto; mira os olhos da “sentinela” do grupo que ergue a cabeça para avaliar se o ambiente é seguro, acalmando-a; se apresenta ao lote e fica parada por alguns minutos, como se estivesse conversando mentalmente com os animais, já totalmente sossegados. A cena registrada por DBO na Fazenda Colina, de Marco Garcia de Souza, em Três Lagoas, MS, é um exemplo de como a jovem veterinária Adriane Lermen Zart, 30 anos, consultora da Personal PEC, com sede em Campo Grande, MS, maneja bovinos apenas com o olhar e posicionamentos corporais corretos, sem “Nada nas Mãos”, como foi batizada a técnica no Brasil. Em países de língua inglesa, usa-se o termo stockmanship ou low-stress livestock handling, que pode ser traduzido por manejo de gado com baixo estresse.

Desde o ano passado, Adriane vem fazendo uma verdadeira maratona de palestras e treinamentos pelo país para difundir essa técnica, que já está sendo praticada em 36 fazendas de oito Estados, além de Paraguai e Bolívia. O “encantamento de bovinos” descrito por DBO nada tem de mágico. É fruto de conhecimentos empíricos sobre comportamento animal, muitos já comprovados pela ciência, e que agora estão sendo usados por manejadores treinados, na busca por relações menos estressantes entre homens e bovinos, para benefício de ambos. Os fundamentos da técnica foram lançados pelo cowboy norte-americano Bud Williams, falecido em 2012, e pelo veterinário Tom Noffsinger, que lhe deu base científica. No Brasil, esse tipo de manejo foi introduzido pelo também veterinário Paulo Loureiro, que desde jovem manejava animais sem nada nas mãos ao invés de “tocá-los”, como se faz na maioria das fazendas. Loureiro treinou Adriane e é seu mentor até hoje.

O manejo “Nada nas Mãos” difere, em certos pontos, do método proposto pela pesquisadora Temple Grandin, que difundiu bandeirinhas e currais curvilíneos pelo mundo, mas ambos partem do mesmo princípio: uma relação não agressiva do homem com os animais. Hoje, Temple até utiliza alguns dos conceitos de Bud Williams e Tom Noffsinger. Como explica Doug Mayo, diretor de extensão rural da Universidade da Flórida, a diferença entre os dois métodos (ambos válidos) é que Grandin, por ser autista, desenhou instalações que isolam os animais, protegendo-os e eliminando fontes de distração ou medo. Já Bud e Tom propõem estabelecer um contato direto com o gado, na base da confiança. Por isso, eles preferem trabalhar em currais retos e abertos, onde o manejador fica no chão, podendo ver os bovinos e ser visto por eles.

Como estabelecer confiança? - O conceito de interação homem/animal, com base na confiança, parece abstrato à primeira vista, mas, conforme lembrou Paulo Loureiro em sua palestra na Conferência Internacional de Confinadores (Interconf), em setembro de 2015, o homem domesticou os bovinos há 10.000 anos observando seu comportamento. Comunicou-se com eles por meio de linguagem não-verbal: gestos, movimentos corporais, ângulos de posicionamento, olhar, atitudes (mais ou menos energia) . "Os bovinos compreendem essa linguagem e seguem quem sabe utilizá-la. Tornam-se reativos apenas quando têm uma experiência ruim conosco. Se forem respeitados, confiam em nós", explicou Loureiro, salientando que o foco da técnica são as pessoas, não as instalações ou equipamentos.

Segundo Adriane Zart, os vaqueiros percebem isso e se sentem valorizados. "Quando termino uma demonstração, sempre me procuram para perguntar detalhes, querem melhorar", diz ela. Em um de seus depoimentos, Bud Williams recomenda ao vaqueiro "ler" o que os bovinos "dizem", para fazê-los executar voluntariamente o que deseja deles. "Os animais não podem nos considerar predadores. Mais que fazer um manejo de baixo estresse, quero livrá-los do estresse. Com isso, faço o trabalho mais rápido do que no método tradicional. Não cometa o erro de pensar que eu trato os bovinos como bebês. Provavelmente, eu os pressiono mais do que a maioria das pessoas, mas da forma como eles admitem ser pressionados. Se você deseja aprender a trabalhar como eu, primeiro mude de atitude. Esta é provavelmente a coisa mais difícil que eu te pedirei para fazer".

Adriane, que já apresentou a técnica "Nada nas Mãos" a 467 pessoas, afirma que seu impacto inicial é forte e transformador. Com um ou dois dias de treinamento, os peões já assimilam os conceitos e começam a trabalhar com o gado sem gritos, sem correria, mas também podem voltar facilmente à rotina antiga, devido à força do hábito. Segundo ela, é preciso que o proprietário da fazenda e o chefe de equipe "comprem" o novo sistema de manejo e corrijam eventuais desvios. Novos treinamentos podem ser feitos para eliminar dúvidas, aperfeiçoar processos e integrar novos funcionários. O sucesso da técnica depende de exercício contínuo e paciência. É preciso ver o mundo a partir da perspectiva dos bovinos (como também faz Temple Grandin), considerando-se 10 premissas:

1ª) O gado gosta de nos ver - Seja por curiosidade, seja para se sentirem seguros, os bovinos viram quando alguém se coloca atrás deles (seu ponto cego). Eles gostam de ver quem está em seu ambiente para ter certeza de que não se trata de uma ameaça. O manejador, portanto, deve se posicionar sempre à frente dos animais, para que eles o vejam e fiquem tranquilos. Foi o que fez Adriane na cena descrita no início desta reportagem. Assim que o grupo se sentiu seguro, ela foi até a porteira, abrindo-a e mostrando-a para os animais. Depois, ela esperou que as novilhas da frente se virassem na direção indicada e foi para perto delas, colocando-se na sua lateral. Com o olho esquerdo as novilhas viram Adriane (guia) e com o direito a saída (porteira), para onde todas se dirigiram, sem correr.

"Se eu ficasse atrás delas, iriam virar para me ver e caminhar no sentido contrário àquele que eu queria", diz a consultora. É importante lembrar que os bovinos têm os olhos dispostos nas laterais da cabeça, o que lhes garante amplo raio de visão (345°) e percepção panorâmica de aproximações, mas, dependendo da distância, eles precisam fixar os dois olhos no objeto para identificá-lo com precisão. Isso exige movimentação da cabeça e, consequentemente, do corpo na direção-alvo, o que pode atrapalhar o fluxo do lote. "Entender como os bovinos enxergam e posicionar-se corretamente é fundamental para manejá-los bem", diz Adriane, lembrando que esses animais também têm audição apurada, por isso é importante evitar gritos e eliminar fontes de barulho alto no curral.

2ª) O bovino vê melhor quem está em movimento - Devido à forma elíptica de sua pupila, o bovino tem maior acuidade visual para objetos em movimento. O manejador deve evitar ficar parado quando estiver trabalhando com o gado. Quando está de pé, em frente aos animais, Adriane coloca as mãos nas costas e executa um movimento leve para frente e para traz, semelhante ao de um pêndulo usado em hipnose, o que aumenta a sensação de que ela está "encantando" os animais. "Se você for guia e estiver próximo à porteira, não fique parado. Movimente-se levemente para que os bovinos te vejam melhor e continuem andando", recomenda.

3ª) Sim, o boi responde ao olhar - O olho é um órgão sensorial poderoso, que os adeptos do manejo "Nada nas Mãos" sabem usar. Bud Williams era perito nisso, o que lhe rendeu fama, mas também críticas, pois muita gente não acreditava ser possível estabelecer uma conexão visual "funcional" com os bovinos. Paulo Loureiro e Adriane garante que é. "Se eu olho para alguém durante muito tempo sem que essa pessoa saiba o motivo do meu olhar, ela fica incomodada, com medo, e se afasta. Com o bovino acontece a mesma coisa. Quando miro um animal, ele sabe que estou olhando para ele, sente a pressão. Se quero lhe dar um comando, mantenho esse olhar e viro meus ombros para onde eu quero que ele vá", exemplifica Adriane, ressaltando, porém, que isso exige treinamento.

4ª) O gado gosta de passar por nós - Trata-se de um movimento natural, que alivia a pressão. "Devemos nos posicionar em ângulos que permitam ao animal fazer isso e se sentir cômodo. O manejador pode usar esse tipo de comportamento a favor do manejo. Quando você passa pelo gado no sentido contrário ao trajeto dele, faz com que ele aumente a velocidade do passo. Se caminha à frente, reduz seu ritmo", explica Adriane.

5ª) O gado gosta de retornar por onde veio - Esse é um instinto natural de preservação dos animais, que não sabem o que têm à frente, se sentem inseguros e voltam para onde se sentiam confortáveis. "Uma estratégia interessante é fazer pressão na direção contrária. Se o gado empaca no canto de uma remanga, por exemplo, devemos pressioná-lo nessa direção, para que passe por nós e se mova voluntariamente na direção que desejamos. É importante ter sempre alguém de guia à frente, próximo à porteira, mostrando o caminho", diz Adriane.

A falta de "guia" dá espaço para animais indecisos pararem na entrada e olharem para trás, imobilizando todo o lote. Às vezes, mesmo com manejo correto, há resistência, devido a memórias negativas. Durante a visita de DBO na Fazenda Colina, os animais que haviam sido vacinados recentemente não queriam caminhar em direção ao tronco coletivo. "Nessa hora é que o vaqueiro precisa focar na técnica e não perder a paciência", diz Adriane. O comportamento dos bovinos reflete a maneira como foram tratados. Há evidências de que eles podem discriminar uma pessoa da outra, por meio de associações sensoriais e experiências cumulativas. "Pode-se explorar isso no manejo", diz a consultora.

6ª) Atenção: o boi processa uma coisa de cada vez - Se um animal está parado, tentando distinguir uma sombra de um buraco e é pressionado por trás, ele fica confuso, porque não terminou o que estava fazendo. Quando duas ou três pessoas entram para trabalhar no curral, todas com bandeirinhas na mão e ainda gritando, os animais não conseguem compreender o que está acontecendo e ficam amedrontados, porque é muita informação para processar. "Frequentemente, esse tipo de confusão se instala quando algo dá errado no curral. Chegam mais dois, mais três para ajudar e logo cinco pessoas estão correndo atrás do gado aos gritos, e algum animal nervoso acaba investindo contra as pessoas, causando acidentes. No manejo do gado, menos é mais", sentencia Adriane.

7ª) Após pressionar, sempre alivie - "Se você quer que uma vaca se levante basta andar em sua direção, mas é fundamental que, no momento que ela começar a se levantar, você dê dois passos para trás, como se dissesse 'muito obrigado'. Nunca se deve fazer pressão contínua, pois isso gera estresse e movimentos de fuga. Os animais precisam de alívio para se sentir cômodos", explica a consultora. Bud Williams usou eficientemente esse conceito para conduzir animais selvagens no norte dos Estados Unidos, fazendo movimentos de avanço-recuo em direção à manada. O nível de pressão exigido para mover o animal varia conforme a raça. Bovinos cruzados demandam mais pressão do que os Nelore. Estes, segundo Paulo Loureiro, são os animais mais fáceis de trabalhar no mundo. "Sensíveis, espertos, eles aprendem rápido", diz.

8ª) Bovinos gostam de estar em grupo - Como foram vítimas de predadores na natureza, eles se aglutinam formando manadas para se proteger. Quando um animal para à frente, todos param. O manejador precisa convencer esse primeiro indivíduo a entrar, para puxar o restante do lote. Nestes casos, não adianta aumentar a pressão no fundo, porque o grupo não consegue (e não deseja) empurrar o "colega" da frente. Trabalhando pela lateral, olhando no olho do indeciso e bloqueando sua passagem à esquerda, ele acaba entrando. Se um vaqueiro gritar no fundo, todo o lote vai se voltar para ele e andar na direção errada.

9ª) Respeite a hierarquia do grupo - Bovinos, como se sabe, têm uma hierarquia interna. Aqueles que levantam a cabeça quando a gente se aproxima são os sentinelas. É preciso identificá-los, mostrar-lhes que não somos predadores e conquistar sua confiança para que baixem a cabeça. Dessa forma, o líder, normalmente posicionado na segunda fileira da frente, compreenderá que tudo está bem e conduzirá o lote para onde queremos que ele vá. "Essa leitura deve ser feita na hora e depende da sensibilidade do manejador", explica Loureiro.

10ª) O gado percebe nossa energia - Além de conhecer o comportamento dos bovinos, é preciso saber dosar nossa energia ao manejá-los. Em determinadas situações, segundo Adriane, é necessário imprimir vigor aos movimentos corporais e ao olhar para garantir uma pressão eficaz. Isso precisa ser feito na medida certa. Pessoas muito agitadas podem exagerar na dose, mas quando controlam bem sua energia, conquistam facilmente a confiança do gado. "Confiança é a chave de tudo. Para alcançá-la, é preciso respeitar o bovino e não vê-lo como um animal estúpido, incapaz de aprender. Pense no que você está fazendo para que ele se comporte assim. Com essa mudança de atitude, vai conseguir que o boi faça espontaneamente o que você quer. Ninguém gosta de ser forçado, ameaçado ou agredido", diz a consultora.

Intuição e ciência aplicadas ao manejo - As bases da técnica "Nada nas Mãos" foram lançadas pelo cowboy norte-americano Bud Williams a partir de suas experiências de campo. Nascido em 1932, no Oregon, noroeste dos Estados Unidos, ele trabalhou em diversas fazendas do estado vizinho, Califórnia, tornando-se conhecido por manejar animais difíceis. Quando suas filhas foram para a faculdade, Bud e Eunice, sua esposa, passaram a aceitar desafios, como reunir renas no Alasca ou gado selvagem no Velho México. Somente a partir de 1989, Bud começou a transmitir seus conhecimentos a outras pessoas. Passou seus últimos sete anos de vida em Lloydminster, Alberta, Canadá, treinando a equipe do confinamento Vee Tee Feeders a trabalhar gado sob condições climáticas severas. Após sua morte, em 2011, sua esposa continuou a dar aulas.

Um dos melhores alunos e admiradores de Bud foi o veterinário Tom Noffsinger, formando pela Universidade do Colorado, que, em 1998, convenceu o cowboy a trabalhar com ele, em Benkelman, no Nebraska. Incansável estudioso do comportamento animal, foi Tom quem lançou as bases científicas da técnica. Hoje, ele é considerado um dos maiores especialistas norte-americanos de stockmanship. Em 2013, o brasileiro Paulo Loureiro, que já fazia esse tipo de manejo nas fazendas que atendia, conheceu Tom e se aperfeiçou na prática. À época, ele era diretor de marketing da Merk e ajudou a empresa a lançar o Projeto Creating Connections, que visava melhorar o bem-estar e a saúde animal usando manejo de baixo estresse. Foi Loureiro quem introduziu a técnica "Nada nas Mãos" no Brasil. Ele mora nos Estados Unidos e hoje trabalha na Zoetis, mas continua a atuar nessa área.

Adriane Zart fez cursos com os dois especialistas. Gaúcha de Dom Pedrito, ela se mudou aos 12 anos para Campo Grande. Após se formar em veterinária e fazer mestrado, prestou serviços em fazendas na área de reprodução. Em 2014, entrou para a empresa de consultoria Personal PEC, especializada em genética e reprodução. "Foi nessa época que comecei a me interessar por comportamento animal. Minha família sempre criou Hereford e Braford, que são raças muito dóceis. Estranhei a forma como as pessoas lidavam com bovino Nelore nas fazendas que eu atendia. Vi gado correndo atrás de gente e gente correndo atrás de gado. Olhava aquilo e pensava: está errado, não pode ser desse jeito. Foi aí que tive a sorte de conhecer Paulo Loureiro, a quem devo muito", relata. Antes de fazer o curso nos Estados Unidos com Loureiro e Tom, Adriane passou um mês treinando a técnica com novilhas Nelore em uma das propriedades de sua família, no TO. "Foram minhas melhores professoras", diz ela.

*Matéria publicada originalmente na edição 441 da Revista DBO. 

Fonte: Portal DBO


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